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  GRAVATÁ - Poesia de Edgar Batista

Meninos de Rua


 
Uma conversa amigável
 Com um menino de rua
 Sem ter pai e sem ter mãe
 Numa vida muito crua
 Eu passei a lhe perguntar
 e ele a me declarar
 quanto é triste a vida sua.
 
 Me tratando de seu Zé
 Começou a me falar:
 Não tenho pai não tenho mãe
 Nem uma casa para morar
 Nunca fui em uma escola
 E vivo a pedir esmola
 pra poder me alimentar.

 Quando eu bato em uma porta
 querendo arranjar um pão
 Gritam logo enfurecidos:
 Se é esmola, não tem não!
 Eu vivo como bicho
 pegando comer no lixo
 Fazendo as vezes de cão.

 Também tem meus companheiros
 Uns roubam, outros pedem esmola
 E outros que se dedicam
 a fumar e cheirar cola
 Mas seu Zé, pra o senhor ver
 Coisas ruim pra se aprender
 a rua é a melhor escola.

 Peço uma esmola, ninguém dar
 Vivo assim perambulando
 Se limpo o vidro de um carro
 algum trocadinho esperando
 O dono fica zangado
 Nem sequer dar obrigado
 E vai logo se afastando.

 Que vida triste seu Zé
 é a do pobre abandonado
 Quando eu vejo tanta riqueza
 na mesa de um Deputado
 Pra encher suas barrigas
 e formarem tantas brigas
 Como a TV tem mostrado.
 

 
É tudo isso seu Zé
 que tenho pra lhe dizer
 Vou seguir o meu caminho
 Que já quer anoitecer
 Vou procurar uma calçada
 duma casa bem afastada
 pra que eu possa adormecer.

 Eu peguei um só real
 que eu trazia no bolso
 Até que me engrandeceu
 Dizendo: obrigado seu moço
 Agora irei me deitar
 E assim que me acordar
 Já tenho certo meu almoço.

 Ouviram autoridades
 Ouviu Senhor Presidente
 Senhores Governadores
 Com um poder tão potente
 Vamos fazer sacrifício
 E tirar-mos do precipício
 Esse Povo, essa gente.

 Tanto dinheiro se gasta
 com festas, viagens e banquetes
 Com fogos de artifícios
 E mesas com ramalhetes
 E as crianças coitadas
 Nas ruas abandonadas
 como bandeiras de enfeites.

 Vamos pedir a Deus
 o perdão desse pecados
 E favorecer aos pobres
 Tristes e abandonados
 A benção do Pai Eterno
 para sair-mos do inferno
 e viver-mos juntos sentados.

 Decerto não sou seu Zé
 E sim Edgar Batista
 Que falo com toda franquesa
 Nesta vida realista
 E vendo a coisa errada
 Não podendo fazer nada
 Feito galo, baixo a crista.
 Nota da redação: Esta obra de Edgar Batista foi transcrita do original de uma
 publicação em folha única editada pelo autor e distribuída publicamente sem ônus.
 Respeitamos o integral do escrito em sua forma publicada.

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